10 de abr de 2012

Mensagens indesejáveis

Por Rosângela Rocha

Para mim, computador é essencialmente um instrumento de trabalho. Por isso, ando preocupada com os e-mails que diariamente aparecem na minha caixa de correio. Como o volume aumenta incessantemente, cada vez perco mais tempo na seleção. É a velha história de separar o joio do trigo.

O inimigo persegue-me diretamente, surgindo não sei de onde para aborrecer-me. Antes de apagar, leio rapidamente a mensagem. Dependendo do conteúdo, emoções negativas instalam-se imediatamente, como perigosas invasoras. Sempre que isso ocorre, sinto-me irritada e às vezes um tanto ofendida.

Divido essas mensagens em duas categorias principais: as que pretendem animar-nos com conteúdos religiosos, de autoajuda e/ou melosos (por exemplo, orações intermináveis, flores que se abrem lentamente, geralmente ao som de música, roubando vários minutos do nosso precioso tempo), e aquelas que, aparentemente, querem beneficiar-nos com avisos, informações e conselhos.


É mais fácil identificar as primeiras. Ao recebê-las, apago-as logo, quando consigo. Às vezes é tão complicado fazê-lo que sou obrigada a desligar o computador. As segundas, contudo, são mais complexas, pois cobrem uma quantidade vastíssima de assuntos: informam sobre golpes terríveis aos quais estaríamos sujeitos, na internet ou fora dela, explicam os malefícios - reais ou imaginários - de medicamentos, dão dicas que chegam a ser bizarras sobre assuntos igualmente extravagantes, falam mal de políticos, "combatem" a corrupção. É impossível fazer uma relação completa dos temas abordados.

Os dois tipos têm algo em comum: geralmente os textos são mal escritos, com conteúdos moralistas, ultrapassados, autoritários, alarmantes, frutos de mentes que se consideram donas da verdade. Como fazem parte de "correntes", é impossível identificar seus autores. Não informam as fontes utilizadas, não citam pesquisas. Sua única função é disseminar a paranoia generalizada. Além de deixarem a desejar, do ponto de vista ético, esses textos são, esteticamente, de absoluta pobreza.

Fico zangada quando colegas enviam-me esses e-mails, menosprezando minha inteligência e minha capacidade crítica. A raiva aumenta ainda mais quando os remetentes são parentes ou amigos íntimos, que conhecem ou deveriam conhecer meu modo de ser e de pensar. A estes, meu primeiro impulso é responder. Ainda bem que aprendi a conter meus impulsos, pois detesto magoar os outros e perder amigos.
Rosângela Vieira Rocha é jornalista, escritora e professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Tem oito livros publicados. Lançou recentemente o infantil Três contra um, sobre bullying na escola. Nem tudo foi carnaval, sua primeira obra para o público jovem, será lançada durante a Bienal do Brasil.


0 interações:

Postar um comentário