12 de nov de 2008

Acorda, espectador!

Retomando a questão do sensacionalismo na mídia, apresentada no texto E até a próxima tragédia..., da Nathália, e também abordada pelo documentário Ônibus 174, exibido no cineclube, gostaria de ressaltar algumas questões que, freqüentemente, vêm sendo confundidas pelos ditos comunicadores e pelos próprios espectadores. Questões estas que acabam por enfocar de forma negativa o jornalismo investigativo.


O caso da jovem Eloá, seqüestrada e assassinada pelo namorado, Lindemberg, além de, claro, cumprir com a atual função do noticiário policial de chocar o país, nos dá também uma sensação familiar, um certo gostinho de “já te vi”. Além da infeliz recorrência de acontecimentos como esse, o que realmente nos leva ao déjà vu é o tipo de abordagem utilizado pela mídia.


O jornalismo começa a ser confundido com entretimento de mau-gosto. O interesse público perde seu lugar para o interesse do público, que se torna cada vez mais anestesiado e alheio aos reais acontecimentos por trás das telas de TV ou entre as linhas do jornal. Os dramas policiais se tornaram as novelas da família brasileira.

O hábito e o comodismo nos levariam a culpar os meios de comunicação, editores e redatores pela forma como a notícia nos é entregue, mas sinto informar que o jornal, assim como qualquer outra instituição, depende de subsídios para se manter ativo. Os jornalistas continuam trazendo os problemas e injustiças à luz, ou aos holofotes, melhor dizendo, mas o espetáculo só acontece quando se tem platéia para financiá-lo.


Não pretendo, entretanto, desviar a imprudência completamente para os espectadores. Além da questão da dependência financeira, a pressa de se obter uma matéria antes do jornal concorrente também tem piorado a qualidade da notícia. O furo de reportagem não deveria justificar a irresponsabilidade do jornalista.


Apesar da banalização de escândalos e comercialização de tragédias, vale salientar que a imprensa foi e continua sendo uma forma extremamente eficaz de difusão de informação, e que o jornalismo investigativo também tem, teoricamente, um papel muito importante de mobilização social para aflorar a necessidade de mais discussões éticas e a tomada de consciência da população.


Quão maior for a repercussão dos exageros midiáticos, mais a demanda pelo show de horrores é levada em conta e, conseqüentemente, mais sangrentos ficam os programas e matérias. Se a situação continua rumando para a espetacularização dos casos policiais, o que tem de ser questionado não é a origem da culpa ou do problema, mas o conteúdo das notícias que são apresentadas.


Basta citar o caso do repórter investigativo Tim Lopes, cujo trabalho de averiguação de grupos que usavam drogas só caiu em amplo conhecimento após o sumiço de seu corpo. O que despertou a curiosidade pública não foi o jornalismo que ele fazia, mas a tragédia que ocorreu. Se o brasileiro está mesmo tão indignado com essa mídia de desgraças, um bom começo é levantar do conforto da poltrona, sair da segurança da acusação alheia, parar de compactuar com esse mercado de exibicionismo e cobrar a informação, o conteúdo que é seu de direito.

2 interações:

Mel Bleil Gallo disse...

Ótimo texto, mairinha!

É um problema inclusive quando no próprio espaço acadêmico somos incitados a "cumprir com a atual função do noticiário policial de chocar o país". E isso não só do policial: toda notícia parece ser feita com objetivo de chocar e não informar... é frustrante, pra não dizer vergonhoso!

Me lembrou um pouco o texto que a gente leu em fotojornalismo, da "a insustentável leveza do clique fotográfico" da Ana Flávia Sípoli. Lá ela coloca justamente essa questão da responsabilidade compartilhada entre jornalistas, editores e espectadores/leitores.

Eu só acho complicado jogar pro público - que muitas vezes não sabe que comunicação é um direito, e nunca teve acesso a uma programação de qualidade - o dever de ir atrás de algo melhor.

Na minha opinião cabe a nós, comunicadores e aprendizes, pensar em formas de transmitir essa consciência à sociedade, de forma que ela passe a se organizar autonomamente. O programa "Outro Olhar", da TV Brasil, me parece uma excelente iniciativa nesse sentido de formar redes sociais, buscando garantir seu direito à comunicação e de comunicar.

O debate continua, afinal de contas, pro SOS "informação não é mercadoria, mas é notícia!"

;)

Mari Haubert disse...

Parabens Maíra.
Esse texto traz a tona novamente esta discussão que já vínhamos tendo, mas que parece não ter uma resolução tão simples assim né. Mas como disse a Mel, o pior de tudo é quando somos "ensinados" (pra não dizer, quase domesticados) a compactuar com este tipo de imprensa que atualmente vigora na sociedade. Quando não se tem espaço para o debate nem na Universidade, é realmente preocupante.
Mas vamos continuar nos questionando e propondo discussões né, ainda que os "educadores" não achem isso necessário.

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