28 de mai de 2011

A TV Record e o jornalismo religioso

Muito tem se falado sobre o kit educativo anti-homofobia, elaborado pelo MEC com a ajuda dos segmentos LGBTTTs e que seria distribuído em escolas do nível médio, pelo programa Escola Sem Homofobia. Na última quarta-feira, 25 de maio, o kit foi enfim suspenso pela Presidenta Dilma, após a bancada evangélica transformar a aprovação do kit em moeda de troca com o governo, ameaçando parar a votação dos projetos caso o material não fosse vetado.(1)

A influência dos segmentos religiosos em assuntos de interesse público encontra ecos no meio jornalístico. A emissora de TV Record, que tem como principal financiadora a Igreja Universal do Reino de Deus, veiculou uma infeliz matéria, por meio do programa Domingo Espetacular, sobre o kit educativo. (2)


Primeiramente, o material anti-homofobia é nomeado, logo no início da matéria, pelo apelido discriminatório e pouco explicativo "Kit Gay" - impropriedade cometida também por outros veículos, como a Folha de São Paulo. No decorrer da matéria, o apelido continua a ser utilizado, deslocando o foco da discussão sobre a homofobia para uma postura conservadora em relação à veiculação dos vídeos nas escolas. A reportagem exibe filmes que não fazem parte do kit – ou que foram vetados pelo próprio MEC – para justificar que eles não sejam exibidos para crianças. Contam com justificativas de profissionais da educação que explicam os efeitos de uma discussão sobre sexualidade na cabeça de quem ainda está aprendendo o beabá. Mas não mencionam em momento algum que os vídeos são direcionados para professores e alunos de ensino médio, portanto, dos 14 anos em diante, adolescentes que já vivem em outro contexto. Apenas fontes que se posicionam contrariamente ao kit educativo foram entrevistadas, e a exceção, Beto de Jesus, da ABGLT (3), foi visivelmente usada somente para introduzir o segundo assunto da reportagem: o uso de dinheiro público na campanha.

O convênio para a preparação do material custou aproximadamente R$1,8 milhão (4), mas a matéria divulga um valor de R$3 milhões, sem grandes explicações sobre a fonte. Além disso, busca deslegitimar o kit apropriando-se do discurso da professora Amanda Gurgel sobre a precariedade da educação brasileira (5), como se fossem materiais do tipo os responsáveis por tal situação, e a repórter chega a argumentar que tal quantia poderia ser usada para assuntos mais importantes, emitindo um claro juízo de valor. Ao citarem dados da Unesco que colocam o Brasil em posição crítica em rankings internacionais de educação, esqueceram convenientemente de mencionar que a própria organização da ONU aprovou o kit educativo anti-homofobia. (6) Terminam a matéria entrevistando um rapaz homossexual que se posiciona contra o kit, como é seu direito, mas passando longe de entrevistar alguem favorável ao kit do programa Escola Sem Homofobia.

O caso acima leva a pensar sobre um dos paradoxos do jornalismo e dos meios de comunicação atuais: o domínio de Igrejas e segmentos religiosos diversos sobre as informações vinculadas por esses canais, disfarçados de isentos e imparciais, a ponto de desinformar o público para fazer valer seus dogmas. É importante que, se desejamos fundamentar opiniões e suscitar discussões sobre nossa sociedade, e quer sejamos contra ou a favor desse tipo de política pública, procuremos nos informar a respeito, se possível através de mais de um veículo, e de preferência os que mostrem opiniões dos lados interessados das histórias reportadas.
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1: http://www1.folha.uol.com.br/poder/920652-dilma-suspende-kit-gay-apos-protesto-da-bancada-evangelica.shtml
2: http://www.youtube.com/watch?v=oYGm50WZRH4
3: leia a nota oficial da ABGLT sobre a suspensão do kit educativo anti-homofobia: http://www.abglt.org.br/port/basecoluna.php?cod=167
4: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/haddad+diz+que+novo+kit+antihomofobia+nao+tera+custos+extras/n1596983310024.html
5: http://www.youtube.com/watch?v=yFkt0O7lceA
6: http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2011/02/unesco-aprova-distribuicao-de-kit-contra-homofobia-nas-escolas.html

1 interações:

Johnatan Reis disse...

Olá a tod@s..
Gosto do texto e dos pontos ressaltados pela autora.
É importante lembrar a ligação religiosa que a Record tem com a Igreja Universal do Reinos de Deus, pois esta não é a primeira vez vez que a referida igreja usa do canal para transmitir suas mensagens e mostrar os seus feitos. Vide matéria que fala da abertura de uma filial na ÁFRICA.
Enfim...
Gosataria de ler mais sobre a questão do uso das palavras. Por que Kit Gay ou qualquer outra terminação. Você fala sobre isso, mas quero saber mais...Pesquisarei, é lógico, mas fik a dik.
Por fim elogio o bom estilo da autora e a iniciativa de tratar de tal tema!

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