17 de abr de 2015

Vinícius que me perdoe mas fundamental é relativo

Por Vivi Morais

Folheando uma edição antiga de uma dessas revistas de moda consagradas, me deparo com um especial de aniversário do Rio de Janeiro onde a tal da revista decidiu homenagear as mulheres cariocas. Na matéria, os editores optaram por unir em cada página curtas declarações de cariocas relativamente comuns - afinal não é todo mundo que tem a honra de ser neta de Tom Jobim - com frases de Vinícius de Moraes. Até aí tudo certo, certo? Para a maioria das pessoas, aparentemente estava. 



"Não se preocupe, eu amo homens com curvas"


Mulheres bonitas, magras, brancas e de classe média alta com citações de um grande poeta brasileiro ao lado. Mas por algum motivo ler "As feias que me perdoem mas beleza é fundamental" ao lado de "Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza" me incomodou profundamente. Talvez eu só tenha ficado um pouco confusa por não conseguir anotar no meu caderno tudo o que eu teria que ter para ser uma mulher de verdade.

Eu não tenho que ter coisíssima nenhuma. Não tenho que ter um rosto bonito para compensar minhas curvas nem um corpo esbelto para compensar meu nariz desproporcional. Não tenho que “me cuidar” - expressão utilizada erroneamente para dizer que tenho que andar impecavelmente maquiada e cheirosa noite e dia - para compensar meus traços exóticos nem sorrir pra todo mundo e ser super engraçada por não caber numa calça 38. E todos esses pré-requisitos são para alcançar o que mesmo?

Não estou culpando homens, mulheres, ninguém por essas definições. Inclusive, nem o nome da revista importa muito porque acredito eu - ingenuamente talvez - que a matéria foi feita com a melhor das intenções para exaltar a mulher. Como dizia minha mãe quando eu brigava com meu irmão, não importa de quem é a culpa, isso tudo só tem que parar.

O problema não é ser bonita, nem rica, nem "estar dentro do padrão". O problema é acreditar que existe um padrão em um país tão cheio de diversidade e que ele é a fórmula para a felicidade, ou pior, para não morrer sozinha. A única coisa que a mulher tem que ter é o direito de passar o batom, sair sozinha, falar besteira e o direito de ser levada a sério. Assim como homem tem que ter direito de chorar, não ser o macho alfa e não ter que provar sua masculinidade a cada segundo para se reafirmar.


"Representação importa"

Temos - e digo temos porque aceito minha parcela de responsabilidade no problema - que parar de jogar nossas inseguranças nos outros para nos engrandecermos. Até porque gente plenamente satisfeita não fica se intrometendo na vida alheia de forma tão impositiva. Pode parecer que isso é aumentar a dimensão da situação e eu mesma não discutiria nada do tipo há tempos atrás. Mas falando como alguém que é diretamente influenciada pela moda e sabendo que não sou a única assim, matérias como essa e a campanha da Risqué vêm me fazendo questionar se não está na hora de parar de deixar para lá. 

Fotos:
BuzzFeed
Imgur





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