6 de jun de 2009

Bom ou mau jornalismo, popular ou de qualidade: dois conceitos diferentes

Aproveitando ainda o embalo do tema "Jornalismo Popular é de qualidade?", trago pra vocês parte do resumo do programa Observatório do dia 14/04/2009.


Momento de consolidação
Ainda antes do debate ao vivo, em editorial, Dines comentou que enquanto jornais deixam de circular em todo o mundo, no Brasil o fenômeno da imprensa popular consolida-se. "A melhoria do transporte de massas e a estabilidade da moeda a partir de 1995 acionaram um processo de ascensão social do qual se beneficiaram muitos setores da economia. Principalmente a indústria jornalística", disse. O jornalista alertou que o "deslumbramento" com este modelo de imprensa não deve esconder as preocupações com a chamada "imprensa de qualidade".
A reportagem exibida no programa mostrou a experiência do Super Notícia, publicado em Belo Horizonte. Lançado há sete anos, o jornal está entre os mais vendidos no país. Um dos fatores que contribui para o sucesso é a distribuição inovadora. Além das convencionais bancas de jornal, também é oferecido por vendedores ambulantes em pontos de grande circulação e em postos alternativos, como padarias. E o preço é convidativo: R$ 0,25 por exemplar. Lúcia Castro, Editora Executiva do Super Notícia, explicou que o jornal não só tirou leitores dos concorrentes, como também trouxe um público novo. O Diretor Executivo do jornal, Teodomiro Braga, ressaltou que é uma preocupação da empresa atender aos leitores de todas as classes sociais, por isto o diário é encontrado também em favelas e comunidades carentes de Belo Horizonte.
O programa entrevistou o jornalista Arnaldo César, que foi Editor Executivo de O Dia. A questão de fundo que precisa ser discutida, na opinião do jornalista, não é o crescimento ou a queda na circulação dos jornais – independentemente do perfil em que estejam enquadrados. A grande preocupação de Arnaldo César é sobre o futuro dos jornais impressos. Desde a virada do século, há uma migração de leitores dos impressos para a internet. Os jornais estão conseguindo exercer o papel de formadores da opinião pública do país, imprescindível em um ambiente democrático?


Uma volta ao passado
No debate ao vivo, Dines comentou que o fenômeno dos jornais populares não é novo. Hoje, tenta-se "reinventar o que sempre existiu", disse Dines em referência a jornais do século passado. O jornalista ressaltou que o Extra, por exemplo, pertence à Infoglobo, empresa que tem tradição em jornalismo popular. O Globo e A Noite, no passado, encaixavam-se no perfil de vespertino popular. Já O Dia, mantém-se no mercado há mais de 50 anos sempre com o mesmo modelo, mas com alterações na linha editorial. O Grupo Folha também atua no segmento há décadas. Para Octávio Guedes "não está se inventando a roda". O editor-chefe do Extra relembrou que no número de lançamento de O Globo, havia uma matéria especial sobre um problema que ainda é assunto de destaque nos jornais populares, os buracos nas ruas da cidade. Octávio Guedes ponderou que não há diferença entre jornalismo popular e "de qualidade". O que difere é "bom ou mau jornalismo".
Antonio Rocha Filho comentou que a estabilidade da moeda alcançada em meados dos anos de 1990 propiciou o ressurgimento dos jornais populares. O Agora foi produto deste período em que as empresas de comunicação passaram a investir em novos projetos. Desde o início, apresentou um modelo diferente dos jornais que circulavam em São Paulo ao privilegiar a prestação de serviços para o leitor. O que é importante para o cotidiano do leitor em diversos setores, como saúde e trabalho, é notícia. Nos últimos anos, o Agora passou a focar na chamada economia popular, voltando-se para a cobertura da Previdência Social, para atender a uma demanda dos leitores. Para o secretário de Redação do Agora, o que difere o jornalismo popular de hoje do que foi publicado no passado é o sensacionalismo. Atualmente, há conteúdo de apelo popular, mas com menor destaque.
A nomenclatura aplicada aos modelos de jornalismo também foi criticada por Alexandre Freeland. Se o jornalismo classificado como popular é dirigido para as classes econômicas menos favorecidas, o "jornalismo de qualidade" deveria ser voltado somente para a elite? O diretor de Redação de O Dia afirmou que não faz "jornalismo para jornalistas", mas sim para o leitor. O jornal deve ser um produto útil. Freeland relembrou que o salto de qualidade do jornal ocorreu nos anos de 1990, na gestão de Ary Carvalho. Houve uma "injeção de qualidade" no jornal, mas com o foco no mesmo tipo de leitor. O jornalista ponderou que há espaço para política e economia nos jornais populares e citou como exemplo uma recente denúncia sobre funcionários fantasmas da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.


(...)


Jornalismo "quase" de graça
Alexandre Freeland comentou que o fato de pagar pelo jornal estimula o leitor a cobrar qualidade. A venda em banca funciona como uma "assinatura" renovada diariamente. É um investimento que "tem que dar retorno", frisou. Freeland considera que os gratuitos, apesar da boa qualidade técnica, não "têm muita personalidade". Em São Paulo, o fenômeno não se consolidou. Para Antonio Rocha Filho, apesar de bem executados, os jornais gratuitos "não atendem ao que se propõem".
A migração dos leitores da mídia impressa para a internet foi outro tema discutido no Observatório. Octávio Guedes considera que a concorrência com a web obriga os jornais em papel a buscar sempre o melhor. O "jornalista preguiçoso" não tem mais espaço no mercado de trabalho. Com a velocidade da internet, a busca por notícias exclusivas para não repetir a informação deve ser constante. Quando um jornalista comparece a uma entrevista coletiva e chega à redação para escrever a matéria que será publicada no dia seguinte, tanto a chefia quanto os internautas já sabem as informação por meio da rede mundial. "Está cada vez mais difícil ser repórter", disse. Para Alexandre Freeland, a internet é uma ameaça à primeira vista, mas pode ser uma aliada ao obrigar o constante aperfeiçoamento. É uma importante ferramenta de diálogo com o leitor. Antonio Rocha Filho ressaltou que a busca por notícias na rede é "pura e simples", cabe ao jornal impresso uma análise mais aprofundada dos fatos.

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