2 de dez de 2011

Belo Monte de interesses


Por Camila Curado

Imagine-se que, ao chegar em casa, você encontra uma nota de cem reais dentro de um envelope. Uma empresa da qual é cliente lhe presenteia com o dinheiro e um bilhete dizendo: “Parabéns consumidor, você merece essa premiação!“. É tão inacreditável quanto a união de mais de uma dúzia de atores globais na produção de um vídeo para a defesa de uma causa ambiental. Lembra o velho ditado que diz que “quando a esmola é demais o santo desconfia”. Por isso, inúmeros internautas ficaram desconfiados depois que É a gota d’água +10 foi divulgado. Um vídeo como este precisa de roteiro, preparação, ensaio. Dá muito trabalho e exige uma equipe preparada. Houve um grande investimento na construção dessa campanha para lucro nenhum?


A construção da usina de Belo Monte tornou-se uma polêmica evidente desde 2010, quando o Ministério do Meio Ambiente concedeu a licença ambiental prévia para o início das obras. Até James Cameron – diretor de Titanic e Avatar – veio ao Brasil para posicionar-se contra o projeto da hidrelétrica. Todo esse alvoroço é por conta da enorme devastação ambiental que a obra causará na Floresta Amazônica, Rio Xingu, além da população que vive em torno dele – a maioria índios pertencentes ao Parque Indígena do Xingu.




Assim que o vídeo É a gota d’água +10 passou a circular, em menos de dois dias os internautas o colocaram nos Trending Topics do Twitter. Paralelamente, veio o estranhamento dos mais críticos e céticos com relação às intenções por trás do vídeo. Por que aquela quantidade de atores, todos da Rede Globo, se mobilizaram pela causa de Belo Monte? O que faria com que uma equipe de profissionais famosos se unisse de forma tão organizada? A troco de quê? Com que finalidade?

Existe um interesse por trás da mobilização que gerou o vídeo. Atingir o governo? Não sei. Alguém elaborou o roteiro, outro dirigiu e os artistas cederam sua imagem por um movimento importante. Pois bem, não sou idiota para não ter percebido tudo isto. Mas também não sou boba o suficiente para ignorar e discriminar um vídeo que defende uma causa pela qual também sou a favor. Se forem colocar tudo em uma balança, há muito mais interesse, corrupção e hipocrisia envolvendo a construção da hidrelétrica do que o vídeo. Por isso, apesar das especulações, o divulguei para mais de dez amigos e ainda assinei a petição. A causa que defendo é nobre demais para ser comprometida por tão pouco. É a gota d’água +10 tem sido a melhor forma de convencer os menos engajados a aderir ao movimento contra a usina de Belo Monte.

2 interações:

Jéssica Gotlib disse...

Parabéns pelo texto, Camila. De todos os seus que eu li no blog, esse foi o que eu achei mais bem posicionado e crítico.

Entretanto, eu colocaria mais algumas questões, além do fato de serem atores da globo. A própria repercursão do assunto Belo Monte é dúbia.

De repente vemos inúmeras celebridades nacionais e internacionais se manifestando contra a usina. O caso de James Cameron é ainda mais curioso pois, até onde eu sei, ele não é conhecido por ser grande defensor de causas ambientais. Por que defender especificamente essa?

É claro que estamos em um momento onde o movimento ambientalista é muito forte, mas como você mesma colocou, quando a esmola é muita o santo desconfia.

Citando novamente a globo, na última sexta-feira tivemos um globo repórter inteiro sobre as belezas que vão ser destruídas após a construção da barragem. Com certeza o programa foi muito mais caro e trabalhoso que o vídeo com os atores. Só para atingir o governo? Penso que não, embora isso seja uma consequência desejável. Existem maneiras sabidamente mais baratas e eficientes de atingir o governo federal.

A construção dessa usina é um Belo Monte de interesses sim, como você diz, mas eles não se limitam a quem constrói, também são por parte de quem defende a não construção. Eu considero um tanto reducionista e ingenua a crença de que eles estão ligados apenas a ser oposição ou a ser a favor do meio ambiente.

Existem muitas coisas a se pensar em relação a esse assunto. Mais do que podemos imaginar.

Camila Curado disse...

Muito obrigada, Jéssica! Que bom que te agradou (:
Olha... Hoje, eu estava conversando com meu amigo Sette e ele falou algo lógico sobre James Cameron. A época em que o Ministério do Meio Ambiente autorizou a construção da usina, coincidiu com o período de divulgação do filme "Avatar". O diretor, estava muito preocupado em emplacar o longa como o campeão de bilheterias e, em meio a isso, se posicionou como um defensor da natureza, afinal, segundo ele, era sobre isso que o filme tratava. A Belo Monte foi a grande oportunidade de se promover, já que envolvia a Amazônia. A Floresta foi transformada em um simples instrumento de um discursozinho político, mas de interesse puramente comercial.
Agora, pra mim, o envolvimento da Globo (indiretamente) é, de fato, um grande mistério. Cheguei a ouvir ontem, conversando com outro amigo, que a usina tinha o investimento da emissora, mas que, de uns tempos para cá, esse apoio foi tirado e a Globo se posicionou contra tudo o que ela vinha defendendo. Eu não tenho ideia do que está por trás. Realmente, existem muitas coisas a se pensar em relação a esse assunto. Mas a verdade é que, mais uma vez, a Amazônia é apenas um meio para se conseguir um objetivo de cunho econômico.

Postar um comentário