6 de jun de 2014

Snowden: Mais do Mesmo

Por Gabriel Shinohara e Nathália Mendes Santana

No último domingo foi ao ar a entrevista que Edward Snowden concedeu ao Fantástico, muito anunciada e aguardada, motivo pelo qual possa ter sido ligeiramente decepcionante. Durante toda a entrevista era esperado que Snowden fizesse alguma revelação sobre os meses em que vem se escondendo na Rússia ou algum vazamento de informações. Entretanto, tudo que se viu foi uma repetição daquelas perguntas feitas inúmeras vezes a ele desde o início de toda a polêmica gerada após a divulgação dos documentos que comprovaram que o governo americano espionava milhares de cidadãos e governos ao redor do mundo. Além disso, foram feitas perguntas sobre a vida pessoal de Snowden, deixando a entrevista com um tom mais leve do que o esperado.

Glenn Greenwald, o jornalista que atuou como “porta-voz” de Snowden também esteve presente na entrevista. Segundo Greenwald, ainda há muitos documentos que envolvem o Brasil a serem divulgados. Perguntado sobre o pedido de asilo no Brasil, Snowden disse que enviou um pedido formal à Embaixada brasileira, porém não obteve resposta e evitou aprofundar-se no assunto para não desviar a atenção aos documentos que, aos poucos ele vem revelando.


Snowden mora sigilosamente me Moscou, pois é um dos procurados pelo governo americano. Sobre um possível julgamento, Snowden diz que gostaria de ser julgado nos EUA, porém afirma que este não seria justo.

Apesar de ter tido uma grande repercussão desde que os documentos foram divulgados ( o Fantástico foi o veículo que obteve com exclusividade o depoimento de Glenn Greenwald), a imprensa ainda pisa em ovos ao tratar do assunto, pois coloca em jogo tanto a posição da diplomacia brasileira (em aceitar ou não o pedido de asilo de Snowden) quanto a do serviço de inteligência (ao não rastrear esse tipo de invasão aos dados do governo brasileiro).

O debate

Logo após o final do programa “Fantástico” em que o compacto da entrevista foi transmitido e a Globo disponibilizou um streaming, em seu site, de um debate sobre a entrevista e os impactos de Edward Snowden no mundo. Participaram dessa discussão a própria Sônia Bridi, o embaixador Marcos Azambuja, o diretor da anistia internacional no Brasil, Átila Roque e Ronaldo Lemos, do Instituto de Tecnologia e Sociedade.

A primeira coisa que pode ser atentada é o fato de que o debate, de quase uma hora, foi transmitido exclusivamente pela internet e que o formato dele possivelmente influenciou em seu conteúdo. O foco não foi o Edward Snowden, como na entrevista veiculada, mas nas repercussões de seus atos, na política e não no personagem. Os convidados analisaram as ações brasileiras em torno do caso, o discurso do entrevistado e, principalmente o que representaram as ações dele para todo o mundo, mas principalmente, para o Brasil.

Na entrevista, Snowden afirmou que pediu asilo ao governo brasileiro, mas não foi respondido. Os especialistas tiveram uma discussão sobre se o Itamaraty deveria aceitar ou não o pedido, quais seriam as repercussões, se esse ato daria mais poder à nação, assim como o discurso da Dilma na ONU ou se só aumentaria um clima de tensão com os EUA. Temas como a descida forçada do avião do presidente da Bolívia, Evo Morales, na Europa, as razões americanas para fomentar um sistema de espionagem e a imagem de Snowden perante o mundo também foram debatidos.

Existem alguns detalhes no próprio formato do debate que podem ser mais aprofundados, por exemplo, o fato de ter sido transmitido apenas pela internet, o que pode ter dado uma maior liberdade para os participantes porque se supõe que o espectador procurou por aquele conteúdo, ele quer se aprofundar na questão política e não no dia-a-dia do entrevistado.  Alguns trechos excluídos do compacto televisionado foram mostrados no debate, mas sem legendas ou tradução simultânea, ou seja, os produtores partiram do princípio que o público não precisava dessas muletas, de que eram mais escolarizados.


No final, a transmissão focou nas repercussões para o Brasil, na discussão do papel de Snowden em toda essa crise e na imagem que foi criada em torno dele, de terrorista para alguns e de defensor da liberdade para outros. O que realmente surpreendeu foi a Globo dar atenção à internet e criar um conteúdo específico e adaptado para um público diferente do qual a emissora está acostumada.


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